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Valores Humanos na Saúde:
entendendo a desumanização para humanizar o profissional da área da saúde
*KENIA
MAYNARD DA SILVA
As
crises atuais do mundo são reflexos de uma fase de transição de paradigmas,
caracterizada por novas mudanças em conceitos, partindo de uma era cartesiana
para a era da complexidade. As demandas sociais e civilizatórias da sociedade
mundial promovem descompassos em várias áreas do contexto vivencial do homem.
Autores como Tubino, (2002) referem-se as questões da degradação do meio
ambiente, exclusão social, desigualdades sociais, a perspectiva da derrota da
ética em função da biotecnologia, como fatores que evidenciam a crise
importante que se instalou no mundo contemporâneo.
O
paradigma cartesiano estruturou o conhecimento científico do século XVI e
trouxe várias vantagens como divisão de trabalho, produção de novos
conhecimentos, elucidação de inúmeros fenômenos, mas também inconvenientes como
a superespecialização, redução do complexo ao simples, fragmentação dos
saberes, separando os três grandes campos do conhecimento: a Física, Biologia e
Ciências Humanas (ARAÚJO, 2003).
Apesar
dos avanços tecnológicos nesta área, da inegável contribuição para o mundo, o
ser humano se perdeu neste contexto e gradativamente se desumanizou,
valorizando o TER no lugar do SER. Nesta perspectiva alterou os valores
pessoais e gradativamente os inverteu, passou de beneficiário das ações para
ser um meio destas mesmas ações para alcançar um fim, que não era mais o bem
estar do SER humano, como humanidade. Desenvolveu um egocentrismo exacerbado
que tentou satisfazer percorrendo, e infelizmente ainda hoje se vê, o caminho
do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, desvirtuando o sentido de respeito e
solidariedade.
A
fragmentação dos saberes transformou o olhar do profissional da saúde, que
muitas vezes não vê o ser humano por trás da doença, ou de qualquer mal que o
aflija, como uma pessoa que busca por seus cuidados. Na área da saúde, a especialização
que era para contribuir, acaba por separar o cuidador do paciente, levando a
uma relação cuidador – paciente sem qualquer afetividade e compromisso humano,
tal qual uma “máquina de saber” cuidando de uma “máquina com problemas”. O
pensamento simplificante da formação do conhecimento estabeleceu uma distancia
dos sujeitos em relação a realidade destes profissionais, e a que irão
encontrar no dia a dia da sua profissão, ficando desconectados das reais
necessidades de seus pacientes.
Diante desta
grave situação, surgiram as questões da humanização na área da saúde. Mas o que
é humanizar a área da saúde? Não é apenas olhar seu paciente bondosamente,
tentar resolver o seu problema, e sim tentar se colocar em seu lugar como ser
humano e se permitir o sentimento de solidariedade, compassividade, compreender
os aspectos globais do seu paciente, procurando entender as doenças como um
processo somático, envolvendo todo o organismo e o contexto psicosocial do
indivíduo. Desenvolver uma responsabilidade social no cuidar. Muitos podem
dizer “mas isto é coisa para o Serviço Social, ou Psiquiatria, Psicologia, ou
qualquer outra área, mas não a minha!” Neste momento este profissional está
expressando a forma mais fragmentada do seu conhecimento, não reconhecendo o
ser humano completo que está a sua frente e “passando” a responsabilidade
globalizada sobre aquela pessoa para frente. O que podemos pensar sobre isto?
Onde estão os valores humanos que permitem a tal humanização?
Desta maneira,
não se pode fugir de pensar como “eu”, profissional da saúde me sinto neste
contexto? Como ser humanizado? Como passar esta fase de transição
paradigmática? Como lidar com estas questões humanas se fui instrumentalizado
tecnicamente apenas?
Profissionais
como médicos, fisioterapeutas, odontólogos, psicólogos e outros foram treinados
a uma prática profissional imediata, instrumentalizados para uma ambiência
tecnológica, distante da realidade social. Segundo Tubino (2002), não se
adquire postura só por meio de discursos, e sim através de um processo
microsocial, que leva o profissional a assumir “posturas de liberdade,
respeito, responsabilidade, ao mesmo tempo em que percebe estas mesmas práticas
nos demais membros que participam do microcosmo com que se relaciona no
cotidiano” (p.90). Um profissional se forma integralmente, tanto pela
instrumentalização como pela socialização, adquirindo uma expressão de
liberdade, autenticidade e responsabilidade através do exercício de posturas
individuais e relacionamentos coletivo.
Alguns autores
afirmam e atualmente há uma concordância geral, que a postura com valores
positivos no cotidiano depende da postura de cunho interior do ser humano, dos
valores que trás internamente, que suas atitudes são um reflexo de sua visão de
mundo, mas que, a partir de uma decisão real deste ser humano, é capaz de haver
uma mudança, que pode ser positiva e contribuir para o convívio social, seja
este profissional ou não.
Vale a pena
criar oportunidades de cunho educacional, com a intenção de unir os saberes, um
aprendizado para a vida ao proporcionar um microcosmo cotidiano quando oferece
o trabalho em equipe, com a maior diversidade de personalidades, com as mais
diversas visões de mundo, e uma quantidade de pessoas carentes de cuidados, os
pacientes e suas famílias, de todos os níveis, cultural, social e econômico.
Aprender a se conduzir numa situação difícil, em qualquer âmbito, a partir do
sentimento de respeito, sem discriminação, com ética, compassividade,
compreensão e justiça. Perceber que faz parte do todo, no sentido da
responsabilidade, sabendo somar para dividir, no sentido da solidariedade,
fazendo valer o aprendizado, a experiência que estará adquirindo. Além de
exercitar as técnicas e instrumentos aprendidos para uma ambiência tecnológica,
mas agora inseridos numa realidade social, que é um campo fértil para exercitar
os valores humanos inerentes a todos nós.
Desta forma,
pode-se fazer uma síntese equilibrada entre “aprender a aprender” e “aprender a
ser”, remetendo o profissional da área da saúde à construção de princípios em
normas que atuem sobre o seu conhecimento e conduta, envolvendo o pensar e o
agir, respeitando e regulando o sistema de convivência. Assim favorece nestes
profissionais o pleno desenvolvimento da personalidade, com condutas éticas,
morais, configurando o “ser” pessoa e desta maneira estabelecer na área da
saúde a humanização efetivamente.
Referencias
bibliográfica
TUBINO, M. J. G. A necessidade
de uma revisão da formação dos alunos universitários das ciências da saúde. Revista
de Psicologia/Universidade Veiga de Almeida. Vol. 1, n. 1 (2002). Rio de
janeiro: O Instituto, 2002.
ARAÚJO, U. F. de. Temas
transversais e estratégias de projetos. São Paulo: Moderna, 2003.
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