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ATLETAS DO ASFALTO – JOVENS ADULTOS E ADOLESCENTES
NOS SINAIS DE TRÂNSITO: O JOGO E O MALABARISMO PARA SOBREVIVER À EXCLUSÃO
SOCIAL NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO.
ANGELO VARGAS
LEONARDO ALLEVATO
DIOGO BURGOS
ANA LILIA OLLÉ GALVÃO
Universidade Estácio de Sá
Delegacia FIEP – RJ
LECSU –Copacabana
Ângelo.vargas@uol.com.br
Não obstante as transformações demográficas ocorridas
no Brasil nas últimas décadas, o país ainda pode ser considerado jovem. Vivemos
em um mundo contemporâneo e também numa situação paradigmática em relação a
fenômenos como juventude, educação e trabalho; assim, a realidade brasileira
com sua péssima distribuição de renda, reproduz por décadas um modelo econômico
de capital estrangeiro e excludente das camadas mais carentes da população. Um
olhar mais atento nas grandes metrópoles brasileiras no que diz respeito ao
mercado de trabalho informal (sem as garantias que a Lei contempla o
trabalhador), possibilita identificar que uma parcela considerável da população
brasileira está à margem da cidadania. Deste contingente, um grupo considerável
estatisticamente de adolescentes e jovens adultos por razões diversas, estão
excluídos da escola e do mercado de trabalho formal. No que respeita às funções
sociais do trabalho, Castel (1995) e Gorz (1988) citados por Abramovay (1999)
afirmam que é pelo seu intermédio que os indivíduos conquistam o pertencimento
à esfera pública e constituem sua identidade. Para Árias (1998) in Abramovay
op. cit. o trabalho e a educação funcionam como uma espécie de salvo-conduto moral,
um passaporte de entrada para a sociedade e a cidadania.
Muitos dos jovens que estão inseridos no mercado de
trabalho informal vivenciaram ou vivenciam a exclusão desde a casa e a família.
Um considerável quantitativo de jovens da periferia são excluídos de suas casas
pela violência do contexto comunitário, outros, por não encontrarem condições
de permanência junto às suas famílias tendo em vista as inóspitas condições
habitacionais. Destarte, ao mesmo tempo em que perdem o “elo” com seus
familiares, por vêzes afastam-se da escola e de outros grupos onde se
encontravam inseridos. Importa considerar a relevância do processo excludente
em que o sistema escolar está alicerçado. Por fatores diversos a escola está
divorciada do mundo que por sua vez tem como condição motriz a realidade
pragmática. Assim, entre a escola e o mundo o jovem escolhe a rua como a única
e possível alternativa para a aventura de viver (Vargas, 2000). Além disto, nas
sociedades contemporâneas, enquanto o estudo é cada vez mais um requisito
básico para acesso às oportunidades de trabalho, esse último, sem sombra de
dúvidas, é condição essencial para a sobrevivência humana. É por este motivo
que as sociedades excludentes adotam medidas restritivas ao estudo e ao
trabalho dos grupos excluídos ou daqueles considerados uma ameaça: ao vetar o
acesso à educação e ao trabalho, realiza-se por meio indireto, a política do
extermínio própria dos contextos de exclusão radical. Porém é preciso ter claro
que a falta de trabalho e de escolarização são manifestações da exclusão, mas
não são as únicas, e que nem toda falta de trabalho significa exclusão (Abramovay,
1999, p.76).
Nesta mesma semântica de exclusão social, a dinâmica
e as tramas da vida urbana tem aproximado cada vez mais o fenômeno da violência
com a instituição escolar. Guimarães (2003) em estudo exemplar sobre juventude,
escola e narcotráfico, afirma que a relação entre violência e escola pode ser pensada tomando-se
como referência o aumento dos índices de criminalidade, o adensamento e a
mudança dos padrões de violência verificados nas ultimas décadas, aliados às
transformações da vida urbana, que vêm gerando novas formas de organização da
vida na cidade, envolvendo e determinando alterações significativas na dinâmica
social e institucional (p.198). A mesma autora assevera que a imagem de uma
cidade dividida e socialmente segregada, marcada pela partição entre as formas
de vida e os padrões da favela e do asfalto, com a integração apenas marginal
entre esses dois mundos, proporcionam o cenário no qual se pode compreender a
intervenção de grupos externos sobre as escolas, uma vez que a rede escolar
está submetida ao mesmo sistema segregacionista (p.199).
É indiscutível que os sujeitos do estudo que ousamos
denominar de “atletas do asfalto”, constituam uma espécie de subproduto da urbe
carioca, cujo cenário, é a situação sócio-política do Brasil que tem como
fatores de suporte e reprodução, os mecanismos excludentes que imperam no
sistema educacional e no mercado de trabalho.
O estudo objetivou investigar os estilos de vida e o
perfil social de indivíduos que atuam em sinais de transito das vias urbanas
como vendedores de balas e congêneres na cidade do Rio de Janeiro. A primeira
parte do estudo constituiu do levantamento dos locais de maior incidência do
fenômeno. Em seguida, após o mapeamento das áreas da cidade foi realizada a
observação “in loco” dos “modus operandi” dos sujeitos no que respeita ao
contato com os motoristas. Na segunda parte do estudo foi realizada abordagem
junto aos sujeitos e através de uma entrevista semi-estruturada, foi possível
identificar características de vida dos sujeitos no que respeita às condições
sociais. Foram mapeadas 10 (dez) áreas de incidência do fenômeno nas zonas
Oeste, sul e central da cidade. Foram entrevistados 161 (cento e sessenta e um)
sujeitos entre os meses de novembro de 2005 e junho de 2006.
Apresentação dos Resultados.
Quadro 1
Identificação do número de sujeitos, raça, “horário
de trabalho” e dias da semana por local da cidade.
|
Local
da cidade
|
N° de sujeitos
|
Raça
|
Horário
|
Dias da semana
|
|
Av. Airton Senna (B.da Tijuca)
|
22
|
Negros e Mulatos
|
Entre
7:00 e 21:00
|
|
|
Av. das
Américas, Barra Shooping
|
18
|
Mulatos
|
Entre
7:00 e 22:00
|
|
|
(Barra da
Tijuca)
|
|
|
|
Entre
|
|
Av. das
Américas, frontal ao Shooping
|
20
|
Negros e
|
Entre
9:00 e 19:00
|
|
|
Citá
América (Barra da Tijuca)
|
|
Mulatos
|
|
|
|
Av.
Atlântica frontal à Praça
|
16
|
Negros
|
Entre
8:00 e 20:00
|
|
|
do Lido
(Copacabana)
|
|
|
|
|
|
Av.
Atlântica frontal à rua Figueiredo
|
18
|
Mulatos
|
Entre
8:00 e 20:00
|
Segunda-Feira
|
|
Magalhães
(Copacabana)
|
|
|
|
|
|
Av.
Vieira Souto frontal à rua
|
13
|
Negros e
|
Entre
8:00 e 19:00
|
|
|
Joana
Angélica (Ipanema)
|
|
Mulatos
|
|
|
|
Rua Mena
Barreto frontal à
|
12
|
Mulatos
|
Entre
9:00 e 18:00
|
E
|
|
rua Dona
Mariana (Botafogo)
|
|
|
|
|
|
Rua
Voluntários da Pátria frontal à
|
19
|
Negros
|
Entre
9:00 e 18:00
|
|
|
à rua
Real Grandeza (Botafogo)
|
|
|
|
|
|
Av.
Presidente Vargas frontal ao
|
12
|
Mulatos
|
Entre
10:00 e 17:00
|
Sexta-Feira
|
|
Campo de
Santana (Centro)
|
|
|
|
|
|
Av. Rio
Branco frontal à Rua da
|
11
|
Negros e
|
Entre
9:00 e 18:00
|
|
|
Assembléia
(Centro)
|
|
Mulatos
|
|
|
|
|
N= 161
|
|
|
|
Quadro 2
Características dos sujeitos referentes a ocupação e
perfil social.
|
Produto
|
Média de
|
N° de pontos
|
Origem do
|
Percentual
|
Média de
|
N° de dias
|
Grau de
|
Local de
|
Outras
|
Uso de
|
|
vendido
|
idade
|
que atua
|
produto
|
de lucro
|
hora diárias
|
da semana
|
escolaridade
|
moradia
|
ocupações
|
Drogas
|
|
|
|
|
|
|
de atuação
|
que atua
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
13%
|
|
61 nunca
|
|
Balas
|
|
|
|
72% entre
|
86% de
|
61%
|
89% Ensino
|
Baixada
|
92% Não
|
usaram
|
|
|
|
80% = 2
|
72%
|
10% a 15%
|
10 a 12 horas
|
5 dias
|
fundamental
|
Fluminense
|
possuem
|
|
|
|
|
|
Fornecedor
|
de lucro
|
nos locais
|
|
interrompido
|
|
|
39 fizeram
|
|
|
22,06
|
|
"dono do ponto"
|
|
|
28%
|
|
21%
|
|
uso mas
|
|
Amendoim
|
|
|
|
13% dividem
|
11%
|
3 dias
|
6% Estudam
|
Suburbios da
|
5% atuam com
|
abandonaram
|
|
|
|
16% = 3
|
|
o lucro total
|
permanecem
|
|
em caráter de
|
Leopoldina
|
"flanelinhas"
|
|
|
|
|
|
13% Colegas
|
com o colega
|
nos locais de
|
11%
|
suplência
|
|
nos finais de
|
|
|
|
|
|
de trabalho
|
|
5 a 8 horas
|
2 dias
|
|
41%
|
semana
|
|
|
Jujubas
|
|
|
|
4%
|
|
|
5%
|
Zona Oeste
|
|
|
|
|
|
4% = 1
|
|
Conseguem
|
3%
|
|
Concluiram
|
|
|
|
|
|
|
|
15% Compram
|
100% de lucro
|
permanecem
|
|
o Ensino
|
18%
|
3%
|
|
|
|
|
|
em mercado
|
|
4 horas
|
|
Fundamental
|
Zona Sul
|
Trabalhos
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
e abandonaram
|
|
eventuais
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
os estudos.
|
7%
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Zona Norte
|
|
|
|
Média do número de abordagens por
intervalo de ½ hora = 16 abordagens
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Principais queixas
|
Local do corpo mais sensível
|
|
Cansaço
|
84% sentem dores no corpo
|
|
Dores n
corpo
|
inteiro
|
|
Ferimentos
nos pés
|
16% referiram dores no tornozelo,
|
|
|
joelhos, cintura pélvica e região
|
|
|
lombar.
|
Análises e Conclusões.
O Quadro n° 1 além de possibilitar a identificação
racial dos sujeitos, também aponta uma realidade caótica no que diz respeito
aos direitos do cidadão. No que tange à incidência racial, o estudo reforça as
pesquisas realizadas pelo IBGE quando associa a pobreza à raça negra. No que respeita
ao tempo de labor diário, indubitavelmente fica configurada a realidade
excludente dos sujeitos no sentido das garantias dos direitos do trabalhador.
O Quadro n° 2 possibilita a identificação da faixa
etária dos sujeitos, o que nos permite inferir a “aliança” entre a exclusão
escolar e o mercado de trabalho, que por sua vez está de forma inequívoca
amparado na literatura. O estudo possibilitou também assinalar a “organização”
do mercado informal com todas as suas transgressões legais. No que respeita ao
Quadro 3, fica incontestável a precariedade da saúde dos sujeitos, já que o
“modus operandi” somado à precariedade da alimentação e o uso de drogas
constituem fatores de risco ao bem estar dos sujeitos.
Em que pese o alto valor e a fidedignidade das informações
que esta pesquisa permitiu, o estudo não está concluído e assim, a sua
continuidade possibilitará em futuro próximo não só o conhecimento mais
aprofundado sobre os sujeitos como também o delineamento de propostas
interventivas no âmbito sócio-jurídico.
BIBLIOGRAFIA
·
VARGAS, A. As sementes da marginalidade. Rio de
Janeiro: Forense, 2000.
·
ABRAMOVAY, M.;
WAISELFIZZ, Y.; ANDRADE, C.; RUA, M. Gangues,
galeras, chegados e rappers. Rio de Janeiro: Edições Unesco, 1999.
·
GUIMARÃES, E. Escola, galeras e narcotráfico. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003.
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VIANNA, H.
(ORGANIZADOR) Galeras cariocas: território de conflitos e encontros
culturais. Rio de janeiro: UFRJ, 2003.
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