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PIPAS EM CÉU NOTURNO: O HÁBITO DE SOLTAR PIPAS
DURANTE A NOITE NA BARRA DA TIJUCA – UMA ANÁLISE CONTEXTUAL DO FENÔMENO.
ANGELO VARGAS
LEONARDO ALLEVATO
ANA LILIA O. GALVÃO
FLÁVIA FONTOURA
UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ – RIO DE JANEIRO – RJ –
BRASIL
Angelo.vargas@uol.com.br
O hábito de “empinar papagaios ou soltar pipas” tem
sua origem na China em períodos remotos da história. É possível inferir que tal
prática observou três sentidos no contexto social da cultura chinesa: o sentido
bélico, o sentido do lazer-lúdico e o sentido sagrado. Se em tempos de perigo
de invasões territoriais por tribos nômades, as pipas serviram como sinais de
alerta para a direção dos ventos e para a situação tática do inimigo; em tempos
de paz, fez parte do repertório lúdico como lazer ou passatempo na cultura
oriental. Entretanto, é imperativo destacar o sentido religioso tendo por
finalidade, “espantar maus olhados”, quando as pipas subiam aos céus durante a
noite iluminadas por lamparinas. Para as sociedades ocidentais, tem, ao longo
dos tempos, constituído uma forma de lazer como passa-tempo, prática esportiva
(competitiva – artística) e jogo lúdico.
No Brasil, é possível observar esta prática em quase
todas as regiões do país, sobretudo nas periferias ou subúrbios das grandes
metrópoles. Todavia, importa referir, que o hábito de soltar pipas não se
restringe à “territórios tribais” das periferias metropolitanas. Como exemplo,
a prática é intensamente utilizada em espaços elitizados, nas praias, morros e
favelas das zona sul e leste, como por exemplo, na cidade do Rio de janeiro.
Assim, as pipas e todo o aparato que a contempla (expressões regionais,
estereótipos, a rabióla, o cerol e etc.) transcendem os limites “circunscritos”
das classes sociais e se inserem como um símbolo da cultura brasileira.
Embora as pipas sejam utilizadas com
objetivos difusos (inclusive como linguagem simbólica para o tráfico de
drogas), é como lazer (acessível às classes de menor poder de aquisição pelo
seu baixo custo) que o fenômeno atinge maior significação. Não resta dúvidas
que embora o lazer seja contemplado na Constituição da Republica Federativa do
Brasil como um direito social do cidadão, seu acesso é estratificado conforme o
poder de aquisição e consumo dos grupos sociais. Na lição de Melo e Alves
Junior (2003), as formas de diversão ou práticas de lazer resguardam diferenças
axiológicas conforme as épocas não só no que tange a sua morfologia como também
no que concerne aos objetivos: “Contudo, observamos que a contínua busca de
formas de diversão não significa ter sempre existido o que hoje chamamos por
lazer, na medida em que tais formas de diversão guardam especificidades
condizentes com cada época, que devem ser analisadas com cuidado. Por certo existem
similaridades com o que foi vivido em momentos anteriores – e mesmo por isso
devemos conhecê-los, mas o que hoje entendemos como lazer guarda peculiaridades
que somente podem ser compreendidas em sua existência concreta atual. O fato de
haver equivalências não significa que os fenômenos sejam os mesmos. Podemos
observar as diferenças até mesmo nas formas de denominação. É somente a partir
de determinado momento da história que se começa a utilizar a palavra lazer
para definir um fenômeno social...” (Melo e Alves Junior, 2003.p.2).
O fato da prática das pipas
transcender as fronteiras dos subúrbios e periferias e inserir-se nas
alternativas de diversão ou lazer dos bairros “nobres” ou “emergentes”, como no
caso da cidade do Rio de Janeiro, sugere uma socialização do ócio e dos tempos
livres que por sua vez desconhece as barreiras econômicas e se unificam nas
possibilidades lúdicas. A prática das pipas (com cerol e todo o repertório de
linguagem e estereótipos a ela afeitos), na Barra da Tijuca no período noturno,
causou em um primeiro momento, perplexidade e estranheza tendo em vista não
fazer parte do “modus operandi” da população. Contudo, a magnitude dos eventos
(como a participação simultânea de mais de duas centenas de sujeitos) constitui
um fenômeno a ser investigado diante da intrigante trama que envolve o “jogo de
cortes” ou a “tosa” e seus participantes (jogadores).
Em Deporte e Ócio en el proceso de
la civilización, Elias e Dunning inferem que: “nas sociedades industriais avançadas,
as atividades recreativas constituem um reduto em que a inserção social pode
expressar-se de forma moderada no que diz respeito aos níveis de emoção. Não
poderemos entender o caráter específico e as funções concretas do ócio nas
sociedades, se não nos damos conta de que em geral, o nível de controle das emoções
tanto na vida pública como na vida privada, se eleva nas sociedades menos
diferenciadas (Elias e Dunning, 1986.p.85)
O presente estudo objetivou
identificar os sujeitos no que respeita a faixa etária e a área da cidade em
que residem e investigar ,sobretudo, as razões que os levaram a prática das
atividades no local específico (no posto 8) durante a noite.
Como procedimento metodológico foi
utilizado a observação “in loco”, que possibilitou a análise do repertório de
comportamento dos sujeitos no que concerne às relações interpessoais e em
“situações de jogo”. Numa segunda etapa do estudo, após utilização de
estratégias de aproximação, foi aplicada uma entrevista semi-estruturada que
possibilitou o levantamento das características dos sujeitos.
Os resultados permitiram observar que os eventos
ocorrem entre os dias de sexta-feira e domingos no horário entre 18:30 e 3:00h
na Avenida Sernambetiba no posto 8. No que diz respeito às características dos
sujeitos, (68 indivíduos) as faixas etárias variaram entre 11 e 60 anos de
idade e prevaleceram com 99,8% o sexo masculino. Em sua maioria (83%) são
jovens entre 11 e 30 anos de idade. No que tange as culturas juvenis, Machado
Pais (1993), assevera que “todo significado cultural é criado com o uso de
símbolos. As palavras que um jovem ...dirige numa entrevista são símbolos. A
forma como esse jovem veste também se reveste de um significado simbólico. O
mesmo se pode dizer da sua expressão corporal..., todo símbolo é qualquer
objeto ou evento que se refere a alguma coisa ou, melhor ainda, todo o símbolo
envolve três elementos: símbolo em si mesmo, um ou mais referentes e a relação
entre símbolo e referente. Esta tríade é a base de qualquer significado
simbólico. A descoberta dos significados dos símbolos passa pela compreensão
dos significados que esses símbolos tem para os indivíduos, mas vai mais longe
do que isso: passa também pela compreensão do uso que os indivíduos fazem desse
símbolo (p.61).
O Discurso dos indivíduos respeitante as razões de
suas participações nos eventos permitiu identificar categorias tais como
possibilidades de estabelecer relações de amizade, baixo custeio,
possibilidades de fazer negócios (auferir renda), recurso terapêutico, falta de
alternativas de programa, todavia, a categoria “prazer” foi a que mais emergiu
dos discursos sugerindo, destarte, que o envolvimento dos sujeitos ocorre sob a
égide do lazer. Não obstante o “jogo de cortes” e o ato de “cortar o inimigo”
(interveniente ou par) denota uma espécie de “sensação de poder” simbolizado
pela permanência de sua pipa no ar. O local parece ser o “campo de batalha”, e
a Barra da Tijuca, constitui o local, (elitizado e sem fios de alta tensão) o
“território” ou o “céu” conquistado pelo “invasor”.
No que tange ao local de origem dos sujeitos o estudo
possibilitou identificar que os participantes residem em praticamente todos os
bairros da região metropolitana com destaque para a Zona Sul (Rocinha) e a Zona
Oeste (Jacarepaguá). O resultado aponta para uma socialização do lugar, via de
regra, em período noturno freqüentado por moradores do bairro objetivando
outras formas de utilização do tempo livre ou lazer como a “corrida na praia”,
encontros em bares e restaurantes.
Merece destaque a “noção de risco” para si próprio e
para as outras pessoas no discurso dos sujeitos. Foram apontados riscos a si
próprios como lesões derivadas das linhas com substância cortante (cerol) até
os graves acidentes envolvendo motoristas e motociclistas causados também pelas
linhas com “cerol”. Somos levados a concluir que o risco (calculado ou não) faz
parte do imaginário lúdico dos sujeitos e as sensações de perigo constituem
fatores essenciais às experiências de vertigem.
Ainda
na lição de Elias e Dunning verificamos que os riscos possibilitam identificar
com mais “claridade” um dos aspectos fundamentais das relações entre as
atividades recreativas e não recreativas. Talvez seja possível resumir-se conceitualmente
se fizermos referência a uma polaridade específica que recorre a vida inteira
na forma flutuante de equilíbrio das tensões entre o controle e a estimulação
emocional.
É importante assinalar que as manifestações de
equilíbrio de tensões variam conforme as sociedades e os grupos que as compõem
(Elias e Dunning, 1986. p.144) O estudo possibilitou inferir que aspectos
ligados a violência e a segregação social (simbólicas ou manifestas), podem
constituir num fator de relevância para esta “espécie de migração” territorial
que por sua vez tem modificado os hábitos e os costumes dos moradores e
freqüentadores da Barra da Tijuca. Nas lições de Melo e Alves Junior é possível
destacar “que é fato inconteste que o tecido humano se desgastou de forma alarmante
nas ultimas décadas, o que é também observável em outras cidades do mundo e do
Brasil.... O desordenamento econômico global tem produzido efeitos cada vez
mais devastadores. Neste processo de desgaste e desordem, é importante perceber
como as cidades estão cada vez mais fragmentadas, cada vez mais rigidamente
compartimentadas em blocos e submetidas a administrações que privilegiam os
grupos economicamente poderosos “(Melo e Alves Junior, 2003. p.48)
Em ultima analise, o hábito de “soltar pipas” à noite
na Barra da Tijuca, retrata mais que uma oportunidade de lazer ou passa-tempo.
O fenômeno, passa a constituir formas simultâneas de reinvidicações para a
ocupação e socialização do espaço urbano de forma simbólica ou manifesta; uma
espécie de ação para a libertação dos oprimidos e o conseqüente apoderamento da
cidade.
ABSTRACT
PIPAS EM CÉU NOTURNO: O HÁBITO DE
SOLTAR PIPAS DURANTE A NOITE NA BARRA DA TIJUCA – UMA ANÁLISE CONTEXTUAL DO
FENÔMENO.
O hábito de “soltar pipas” ou
“empinar papagaio” faz parte do repertorio lúdico da cultura brasileira. No que
respeita aos grandes centros urbanos das metrópoles, a prática encontra maior
aderência nos subúrbios ou nas periferias. Entretanto, esta espécie de jogo,
tem sua origem multimilenar na China e assumiu formas difusas como lazer,
celebrações religiosas, pratica utilitária e estratégia bélica. Este estudo
investigou a pratica de “soltar pipas” durante a noite na cidade do Rio de
Janeiro na Barra da Tijuca. A identificação do fenômeno possibilitou traçar
estratégias metodológicas para abordagem dos sujeitos, assim como algumas de suas
características e interesses pessoais. A pesquisa assumiu substancial
importância, já que o fenômeno é considerado como comportamento atípico para o
lugar, sobretudo no que concerne ao local da pratica (orla marítima), e os
horários (noite e madrugada), e os “modus vivendi” e “operandi” dos moradores
do bairro.
BIBLIOGRAFIA
ELIAS, N, Dunning, E. Deporte y ócio em el proceso de la
civilización. Madrid: Fondo de Cultura Económica, 1986.
MELO, U. A.; ALVES JUNIOR,
E,D. Introdução ao lazer. São Paulo:
Manole, 2003.
PAIS, J, M. Culturas juvenis. Lisboa: Casa da Moeda
– Imprensa Nacional, 1993.
VARGAS, A. As sementes da marginalidade. Rio de
Janeiro: Ed. Forense, 2001.
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