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JOÃO, AGORA DE DEUS
No Rio de Janeiro há milícias. De acordo com o que li
hoje, “voto em área de milícias ajudou a eleger policiais”. Li também, na
página seguinte, que “cresce o apetite por cargos em Brasília”, que é só no que
os donos do País pensam: cargos, poder e muito, muito dinheiro. Na outra
página, vi o Presidente segurando um pé de mamona e dizendo que o PT não está
rachado. Em seguida, vem a carta dos leitores, e estes só falam no “horror dos
horrores”. Lá, na página 19, a matéria “a sociedade está no limite”, que fala
de João Hélio, a vítima inocente do “horror dos horrores”.
Nesta matéria há opiniões de profissionais
respeitados, no sentido de que a adoção da pena de morte em nosso País não é
para ser discutida num contexto marcado pela emoção, e que o Estado não pode
operar motivado pelas paixões. Outra opinião é no sentido de que “o caminho de
querer fazer justiça com as próprias mãos é perigoso”, que passado o momento da
comoção as pessoas refletem melhor, e que a pena de morte é discutível, sendo
necessária uma legislação penal que puna.
Resumindo o que penso de tudo isto: as milícias
vieram para ficar, e já ligaram o “que se dane” para as autoridades e para
todos nós: ex-autoridades do executivo estão agora no poder legislativo, e ninguém
vai tirá-las de lá! Vamos ser mais honestos e menos hipócritas! Esta
“movimentação” anti-milícias vai durar exatamente o tempo necessário para
começar o Carnaval, e depois o Pan. Quanto à “podridão” que é a luta por
cargos, poder e dinheiro em Brasília... bem, é apenas a velha história: mudam
as moscas... Mas, será que mudam? Enquanto a podridão avança em Brasília, e em
quase todas as casas legislativas do Brasil, o Presidente planta mamona: o
resultado do trabalho de muitos de nossos congressistas talvez sirva de adubo
para a árvore do nosso “Guia”. Bem, ele só pode nos levar para um lugar melhor,
porque, pior do que nós já estamos, é impossível!
E, depois, vêm as opiniões dos doutores, corretas sem
dúvida, mas se forem aplicadas lá na Suíça, ou na Suécia... com todo o
respeito! Dizer que não se pode discutir a pena de morte num contexto marcado
pela emoção, é a mesma coisa que dizer que não podemos discutir a pena de morte
nunca, porque é uma emoção atrás da outra, dia após dia, hora após hora. A violência
desmedida é presença permanente em nosso cotidiano, emoção que nos aflige em
cada esquina que dobramos, em cada olhar estranho que recebemos, a cada vez que
entramos em um veículo e começamos a rezar, para chegar vivos depois de
percorrer a assustadora distância de cinco quarteirões.
Outra opinião é no sentido de que não podemos fazer
justiça com as próprias mãos – Lindo, bíblico! – que a pena de morte é
discutível – é óbvio – e que o necessário é uma legislação que puna. Legislação
que puna não, “doutores”, autoridades que punam. Leis há! Só não são aplicadas,
ou são aplicadas de forma branda demais. Mas, opinião é opinião, e é para ser
respeitada; mas, pode ser combatida. Por ora, não vou combater mais nada,
apenas pretendo falar de João.
João foi um dos primeiros discípulos chamados por
Jesus, e teria sido um dos incumbidos de preparar a ceia da Páscoa, a Última
Ceia, na véspera da crucificação de Jesus. Dizem que ele tinha o temperamento
inflamado, e que uma vez havia “expulsado demônios” em nome de Jesus, porque
eles se recusavam a fazer o bem. Pois bem, os demônios voltaram, e eram cinco,
e resolveram se vingar de outro João, este menor, indefeso... mas também João.
E não eram adolescentes não! Eram adultos! Imaginar, ou cogitar, que estes “menores”
já não são adultos há muitos anos, é um absurdo tão grande quanto imaginar que
em Brasília não há corruptos, que lá eles se preocupam conosco, e que as
milícias vão acabar (não vão acabar as milícias, nem os que elas elegeram).
Estes “demônios” menores já são maiores de idade
desde os 12, 13 ou 14 anos. Cresceram, se educaram e se profissionalizaram em
um ambiente propício à sua má educação e aos seus péssimos instintos. Culpa de
todos nós, eu sei, mas a realidade é esta! Eles são adultos, e como adultos
devem pagar pelos crimes que cometem. Hoje, muitos se insurgem contra a
hipótese de crime, quando meninas de 12, 13 ou 14 anos transam com homens
maiores de 18 anos, no sentido de que elas já são mulheres e que já sabem o que
fazem. É a pura verdade! Eu mesmo tenho um cliente, com 20 anos de idade,
condenado a seis anos de cadeia por transar com uma “mulher” de 14 anos, que
nem virgem mais era quando transou com ele; e olha que ela gostava dele, e que
foi tudo “no amor”. Mas, a lei ainda considera “estupro” transar com menor de
14 anos, embora a sociedade diga que não é mais. Claro que, cada caso é um
caso!
Logo, guardadas as proporções com a hipótese acima,
um menor de 18 anos, com as características dos “demônios” que mataram João,
tem que pagar como adulto pelo crime que cometeu. Há poucos anos, um “demônio”
apelidado de “Champinha” assassinou um casal com requintes de crueldade,
“comandando” os outros assassinos. Quem ousar dizer que ele tem que ser tratado
como menor, com o máximo respeito, é porque perdeu todo o bom senso e a razão.
As leis têm que mudar! Se uma menina de 12 que quer transar pode ser
considerada mulher, um menino de 12 que quer matar pode ser considerado homem.
Ainda mais esses assassinos com mais de 14 anos! Simples assim, e a sociedade
quer assim! É uma pena que, uma vez na cadeia, eles vão engrossar a pior
estatística da reincidência, mas esta já é outra história! Lembrando
rapidamente, em “prisões” de menores, a reincidência gira em torno de 20%; em
prisões de adultos, já chega a 80%.
Voltando ao João, que tinha nome de um dos discípulos
de Cristo e do Papa mais querido, este nosso João pequenino foi martirizado. Se
fosse vivo, João Batista – outro João – já teria cortado a machadadas os
“demônios” que assassinaram seu homônimo João, pois ele dizia que “o machado já
está posto à raiz das árvores; e toda a árvore que não produzir bons frutos
será cortada e lançada ao fogo”. Esta é a vontade que todos nós temos: lançar
os demônios ao fogo, o tal “Champinha, e os assassinos de João! Mas, tudo o que
nos resta é apelar – Olha que ironia? – para os eleitos pelas “Milícias” e para
o plantador de “mamona”, para que façam algo pelo nosso povo, para que possamos
tentar sobreviver. Aliás, hoje no Rio e em São Paulo morrer é muito fácil; difícil
é viver! O tempo aqui nos trata sem piedade, pouco importando a nossa tristeza.
...
- Eu sei, João, que o que
a lagarta interpreta como o fim do mundo, é o que denominamos borboleta! Voa
então menino, para bem longe daqui, que este lugar não te merece... Nós vamos
continuar rastejando como lagartas, procurando folhas verdes de esperança para
nos escondermos de tanta miséria, de tanta desigualdade e de tanta, tanta
violência. Até o dia em que também nos tornaremos borboletas, e poderemos voar
para perto de ti!
WANDERLEY REBELLO FILHO
Membro do Conselho
Penitenciário do Estado do Rio de Janeiro.
Diretor Presidente do
Instituto de Estudos dos Direitos Humanos e do Meio Ambiente.
Diretor da Sociedade
Brasileira de Vitimologia.
11 de Fevereiro de 2007.
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