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HOLOCAUSTO: 50 ANOS DEPOIS
Jorge Josef
Um Congresso de Vitimologia é, sem dúvida, o fórum apropriado
para a realização de um painel sobre o Holocausto pois esta ciência
interdisciplinar, representada pela Sociedade Internacional de Vitimologia,
credenciada como órgão consultivo das Nações Unidas, tem suas raízes na reação
aos crimes perpetrados pelo nazismo.
O primeiro encontro dessa importantíssima visão para o drama
humano realizou-se em Israel sob a inspiração de seu idealizador, o Dr. Israel
Drapkin 1. Mas já em 1947 Mendelsohn pronuncia sua famosa
conferência em Bucarest: "Um horizonte novo na ciência biopsicosocial: a
vitimologia". Nasce uma ciência a partir do sofrimento de um povo e que se
expressa pela generosidade em relação a todos os perseguidos e discriminados. A
necessidade e urgência desta abordagem pode ser medida pelo rápido sucesso que
alcançou no mundo todo.
No Sétimo Simpósio Internacional de Vitimologia, realizado no
Rio de Janeiro, em agosto de 1991, presidido pela Dra. Ester Kosovski, tivemos a
oportunidade, como Relator da mesa sobre Holocausto, de apresentar uma moção,
posteriormente aprovada pela Diretoria, nestes termos (após a exposição de
motivos):
"Recomendamos seja pacífica e permanente a realização de uma
mesa sobre o Holocausto em todos os Congressos da Sociedade Mundial de
Vitimologia".
Os motivos que inspiraram esta recomendação continuam vivos em
1999. A luta contra o ressurgimento do nazismo sob as mais diversas formas
requer uma vigilância permanente. Cada encontro é também uma oportunidade para
aprofundar a reflexão sobre esse momento da História humana – o SHOA 2 – tão intrigante e ainda muito pouco compreendido dada a
enormidade dos crimes, apesar dos esforços de pesquisadores do mundo
inteiro.
Cátedras sobre o Holocausto foram criadas em diversas
Universidades, além de Institutos e Centros de Pesquisa, teses são elaboradas
sob os mais diversos aspectos do conhecimento humano em todas as línguas
ocidentais. Recentemente, o cineastra Steven Spielberg criou uma Fundação
dedicada a preservar a memória do Holocausto através de entrevistas filmadas com
sobreviventes de campos de concentração: a "Survivor of the Shoah Visual History
Foundation". Com sede em Los Angeles, conta com representantes em várias partes
do mundo. Spielberg define-a como "empório multimídia para fins educativos e
jornalísticos".
Psiquiatras e psicanalistas têm-se dedicado a observar não
apenas sobreviventes como descendentes de 2ª e 3ª geração sobre quem verificaram
sérios reflexos, inclusive suicídios como resultado de distúrbios. Isto é parte
de um movimento mundial de repúdio à violência. As pesquisas dos psicanalistas
como Judith Kestenberg, Martin S. Bergman, Milton Jucovy sobre filhos de
sobreviventes demonstram a profundidade do sofrimento e os reflexos no tempo,
sob as mais diversas formas, das agressões sofridas. Também o envolvimento dos
filhos com o passado dos pais sobreviventes ou desaparecidos nos campos de
extermínio é estudado por Maria Bergman e Marion Oliner 3.
Sei que, quando se fala de Holocausto, surgem inúmeras
perguntas. Não há respostas para todas, mas duas questões são constantes e
proponho-me para, juntos, buscarmos alguma compreensão para com elas.
A primeira é: "Por que o Holocausto?" Se há tantos dramas
humanos, antes e depois, como recentemente na Iugoslávia, agora dividida ou
mesmo no Vietnã?
Gostaria de dizer que sinto meus argumentos frágeis diante dos
grandes dramas. Mas vivi pessoalmente o Holocausto e acho que todos aqueles que
presenciaram as violências citadas ou outras têm a mesma obrigação de denunciar
e protestar até o dia em que esses protestos sejam mais fortes que a própria
violência. Nossa atitude não é excludente, mas de solidariedade com todas as
vítimas tanto que podemos afirmar que o movimento dos sobreviventes em defesa
dos direitos humanos, em todas as suas formas, é um dos seus aspectos mais
positivos.
A Segunda razão dos estudos sobre o Holocausto é a sua
especificidade, o seu aspecto único no infelizmente longo histórico da violência
humana, sua singularidade cuja compreensão até hoje nos desafia.
Todo evento é único, mas cada um existe em um contexto
histórico. A questão é em que contexto vamos tentar entender o extermínio dos
judeus.
O escritor Alvin Rosenfeld define: "Não há metáforas sobre
Auschwitz, bem como Auschwitz não é metáfora para nada. Por que? Porque o fogo
era fogo, as chamas eram chamas, as cinzas eram cinzas, a fumaça era fumaça. Só
podia ser o que era: a morte de judeus". Estamos vendo atualmente que, apesar de
o significado de Auschwitz como símbolo do Holocausto haver crescido a partir do
fim da Segunda Guerra Mundial, os termos têm sido usados na mídia para condenar
todas as atrocidades prejudicando a informação sobre um evento único e a
capacidade humana para um genocídio sistemático e continuado com um fim
consciente de extermínio.
As primeiras gerações de scholars que investigaram o
Holocausto fizeram-no à luz da longa tradição européia de anti-semitismo. Hannah
Arendt 4 isolou o anti-semitismo como uma das primeiras
influências da política moderna. Não há dúvida sobre o significado central do
Holocausto para o mundo moderno. David Cesarini 5 tem, com
certeza, razão de chamar a atenção dos educadores britânicos para reconhecer
esta importância. Uma análise realizada na Suécia assinala que um terço dos
adolescentes do país não estavam seguros de que o Holocausto aconteceu na
realidade. O fato perturbou profundamente o Primeiro Ministro que lançou
imediatamente um projeto com o objetivo de informar a história do Holocausto aos
cidadãos do país. O projeto já resultou em uma conferência, programas de
capacitação para professores, criação de um centro de investigação
universitária, exposições em museus, etc. Porém a mais efetiva foi a compilação
e distribuição grátis de um folheto de 100 páginas "Conte a seus filhos", uma
descrição gráfica do Holocausto. O folheto foi traduzido ao inglês com ampla
distribuição nos colégios de língua inglesa. A questão é como lecionar esta
matéria.
A grande preocupação dos memorialistas do Holocausto não é com
os historiadores que negam completamente o extermínio ou como o alemão Ernst
Molte que, sem o negar, massifica-o comparando a qualquer outra matança. A
preocupação é que, a pesar do imenso arquivo de depoimentos e de filmes, quando
se esgota o eu vi e começa o eu ouvi e a interpretação filosófica
passa a chamar-se de política e os diversos eu entendi.
Como falar a respeito, como explicar, como apresentar o
acontecido?
Uma das respostas nos é dada pelo cinema. Arte representativa
deste século, une os recursos de todas as outras, sendo, também, a mais popular
e a mais difundida. Naturalmente o Holocausto teve enorme filmografia. Mas para
exemplificar os três aspectos do que chamamos eu vi- eu ouvi- eu entendi,
selecionamos três filmes bastante conhecidos. Trata-se de SHOA, de Claude
Lanzman (França, 1985), A lista de Schidler, de Steven Spielberg (EUA,
1993) e A vida é bela de Robert Benigni (Itália, 1999).
Durante dez anos, o jornalista francês Claude Lanzman 6, dedicou-se a uma obsessão. Filmar a morte nos campos de
extermínio onde seis milhões de judeus morreram durante a Segunda Guerra
Mundial. Recusou as fotos de arquivo e fez um filme de 9 horas: quatro de
depoimentos e cinco de silêncio, de imagens de cinema. Apresentou o "Shoa" (que
em hebraico quer dizer catástrofe e também aniquilamento). Sem mostrar um
cadáver sequer, a morte está presente na palavra, no presente de quem viveu, de
quem viu. Afirma Lanzman: "É difícil falar do filme a quem não o viu porque foi
construído a partir da impossibilidade de representar a morte".
A lista de Schindler, de Steven Spielberg 7, tem atores: Ben Kingsley, Liam Neeson, Ralph Fiennes, tem a
duração média dos longa-metragens (185m). Baseia-se num romance de Thomas
Keneally de 1982, que, por sua vez, se baseia numa história verídica, a história
de Oscar Schindler. Empresário católico, membro do partido nazista, que
explorava mais de mil judeus em suas empresas, num trabalho escravo, torna-se
protetor deles e salva suas vidas, numa árdua tarefa de manipulação e confronto
com os oficiais nazistas encarregados de sua destruição. No papel principal,
Liam Neeson contorna situações perigosíssimas. Usa charme, mentiras e
contemporizações para conseguir seu objetivo e salva centenas de homens,
mulheres e crianças. Você nunca tem certeza do que Oscar Schundler pensa e tem
como objetivo mas vê que é possível salvar, não somente matar. Este filme de
1993 não apresenta mais testemunhos visuais, são atores. Teve grande sucesso de
bilheteria e até o presidente Clinton recomendou que fosse visto. Trata-se de
filme da Segunda geração pos-Holocausto, enquadrado no conceito do eu ouvi.
Podemos acrescentar que a decisão de Spielberg de filmar grande parte em
preto e branco ressalta alguns aspectos da filmagem, já que não se trata de
documentário. Cria, com este recurso, o distanciamento temporal necessário em
obra de ficção baseada em fatos reais.
A vida é bela, de Roberto Benigni 8 trata
do fascismo e do drama do nazismo na Itália como metáfora. Gerou controvérsias
desde sua apresentação em Cannes onde recebeu o Grande Prêmio do Juri até o
Oscar da Academia de Arte e Ciência dos Estados Unidos, onde teve 7 indicações,
inclusive três para Benigni. O filme pode ser dividido em dois atos distintos.
No primeiro, vemos o excelente protagonista (Benigni), algo clownesco, de fala
acelerada, ridicularizando de todos os modos o oficial fascista, seu rival junto
à bela Dora (Nicoletta Braschi). A vitória do frágil apaixonado sobre o
imponente e poderoso representante do Estado ditatorial é uma delícia.
Os recursos cênicos vão desde a mímica à ironia. Os gags
remetem ao cinema mudo e o triunfo do amor sobre tudo e todos e a justa
conseqüência e ilusória felicidade introduzem-nos ao segundo ato como um
suspense. Antes disso e somente após 20 minutos de filme ficamos sabendo que
Guido (Benigni) é judeu. Esse "tempo" diz-nos claramente que, para o primeiro
ato isso não tinha importância, era irrelevante, mas terá para o segundo.
A segunda parte mostra-nos um Guido casado e feliz com a linda
esposa e um filho, em sua vida cotidiana, bruscamente interrompida pela invasão
de sua casa por uma tropa nazista que quebra tudo e prende pai e filho. Ambos
são levados num vagão de transporte de animais para os campos da morte.
O que virá depois é de comover qualquer ser humano. O filme não
é sobre os horrores dos campos de concentração, não é sobre crueldade e
sofrimento. É sobre o amor – amor de um casal jovem separado sem motivos,
injustamente. Dora segue Guido no trem da morte por necessidade de amor. Guido
busca comunicar-se com sua mulher por amor. O pai protege seu filho com imenso
amor introduzindo-o num "faz-de-conta" com jogos e simulações para diminuir o
sofrimento da realidade vivida. A parceria do pai com o filho nesse jogo
fantástico é a forma que o autor e diretor encontram para dizer o indizível. Não
é um conto de fadas, não tem final feliz.
Como Charlie Chaplin nos induz a muito mais do que a primeira
leitura mas também como Dom Quixote ensina sobre o humanismo e a generosidade
pela farsa. Guido e Dora com o menino Joshua propõem-nos o que pode ser
alcançado quando se trata de eu entendi. E nós também entendemos.
Na atualidade, temos, cada vez mais, obras de ficção sobre o
shoá, criados a partir do eu entendi. Naturalmente, são reflexões
e, como tais, necessitam da participação ativa do leitor – espectador. É
indispensável, nestes casos, a reflexão crítica, tendo como referência as fontes
primárias, o depoimento e o documento. Wolfgang Sofsky, em seu excelente livro
sobre os campos de concentração A organização do terror 9 ilustra este ponto de vista fazendo preceder cada capítulo do
livro de uma longa epígrafe, citando um depoimento de um sobrevivente.
Acreditamos que o objetivo da compreensão histórica não é o diletantismo. Nada
mais ancorado no presente que o reconhecimento do passado. Também não
reduzindo-o somente aos fatos para que prevaleça a dimensão da culpabilidade.
Creio que a conservação da memória é, acima de tudo, um dever e o preço que a
humanidade deve pagar para garantir a própria sobrevivência.
É um preço pequeno mas só ele poderá conduzir à consciência do
que são os regimes criados sob o signo da destruição, do ódio e do poder
absoluto.
Não podemos diminuir a responsabilidade do homem: o passado não
é neutro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
- DRAPKIN, Israel. Nascido em 1906, em Rosário, Argentina, estabeleceu o
primeiro Instituto de Criminologia do Chile. Obras principais: Manuel de
criminologia (1949) e Imprensa e criminologia (1958).
- O termo hebraico "shoa" foi especialmente criado para as circunstâncias da
eliminação de judeus durante o domínio do nazismo. Este termo é o preferido pela
maioria dos estudiosos ao de "Holocausto" que tem conotação de sacrifício
religioso. Porém não se pode prescindir do seu uso por ser mais conhecido e
identificar prontamente esse momento da História.
- KESTENBERG, Judith et alli, in: BERGMANN, Martins S. e JUCOVY, Milton E.
(ed.) Generations of the Holocaust. New York, Columbia University Press,
1982.
- ARENDT, Hannah. Nascida em 1906, na Alemanha. Obras principais: Eichman
in Jerusalem: a report on the banality of evil (1963); The origins of
totalitarism (1951), Men in dark times (1969).
- David Cesarani é Diretor do Instituto de História Contemporânea.
- LANZMANN, Claude. SHOAH. Vozes e faces do Holocausto. Prefácio de
Simone de Beauvoir. Trad. De Maria Lucia Machado. São Paulo, Editora
Brasiliense, 1987. Veja-se: DAVIS, Jonathan et alii. "Shoah: a film by Claude
Lanzmann" in: The Jewish Quarterly, vol.33, n.º1 (121): 6-16, 1986.
- A adaptação do romance foi feita por Steven Zaillian. Em entrevista
transmitida pela TVA, dia 17 de maio de 1999, Steven Spielberg denomina seu
filme de "docudrama" e conta que as locações da filmagem, que durou 72 dias,
foram realizadas nos lugares em que ocorreram os fatos. Veja-se, para outros
aspectos: LEHRER, Natasha. "Between obsession and amnesia", in: The Jewish
Quarterly, vol.41 n.º3 (155): 26-28, autumn 1994.
- O roteiro foi escrito por Vicenzo Cerami e Roberto Benigni.
9. SOFSKY, Wolfgang. L' organisation de la terreur. Paris,
Calmann-Lévy, 1993. |